Espanto e mesmo aversão: tenho me defrontado com isso sempre que a questão é a presença de uma real ciência poética na música. Se apresento, em classe, uma análise de um trabalho de melos de Bach, por exemplo, surge sempre a pergunta: "Mas será que ele pensou nisso?" (futuramente considerarei a questão do pensar). Nunca é demais lembrar que a maneira de se 'entender' a arte que se tem hoje foi construída dentro do mundo burguês. Inclua-se aí a questão do surgimento de rádio, de televisão, de meios para a captação e a reprodução, de uma indústria cultural que destina a uma clientela muito mais do que produtos de consumo. Muito interessante é, desde já, recomendar a leitura da "filosofia da composição", de Edgar Alan Poe. Esse texto pode ser visto como uma detecção do nascedouro da mitificação do trabalho artístico como um dote divino e não como um artesanato. Poe detecta, nos escritores de sua geração e, de certa forma no 'gosto' do público, a necessidade de fugir do reconhecimento desse artesanato ou, simplificando, do 'como é feito o texto'. É na instituição do 'gosto' que se pode ver a resistência burguesa a reconhecer o belo pela via do entendimento. Enquanto, em linhas gerais, temos que a nobreza cultivava o que veio a se constituir em sustentáculo da cultura ocidental (inclusive o sistema tonal), os burgueses se defrontaram com a questão da beleza com o único recurso de que dispunham: o gosto. E isso no momento em que a cultura começa a se disseminar como objeto de posse. Daí a expressão tipicamente burguesa: "gosto não se discute". Depois dessa, acompanhando o desenvolvimento de um mundo tecnológico e pós-industrial, surge outra ainda mais autoritária: "tudo é relativo". Em geral essa pérola do conformismo autoritário é alegada em qualquer circunstância. Ainda que a relatividade pressuponha a efetiva relação entre coisas, essa alegação dispensa o 'Isso e aquilo' para afirmar-se no totalitarismo do 'tudo'. Surge ou pensa-se, assim, como um argumento "cala a boca", que dispensa o proponente de qualquer esclarecimento sobre quaisquer elementos ou aspectos que estariam se relacionando nessa afirmação. E, tal como o gosto, reverte-se para o proponente num exercício vazio de afirmação narcisista, muito adequado ao individualismo 'do mundo protegido pelos entretenimentos', como diria Schoenberg. O 'relativo', longe de seus pressupostos dinâmicos, valida-se como uma opinião-limite. Parece que se nega ao artista sua própria capacidade de formular sua arte e exclui-se da fruição a possibilidade de reconhecer-lhe as capacidades de produção. A negação do artesanato me faz pensar que não será acaso que Boulez musicou "Le Marteau Sans maître", de René Char, que se inicia com um tríptico sobre o poema «L’artisanat furieux». (Continuo depois)